RC exagera ao se dizer ‘irmão siamês’ de Campos

Convenhamos, o governador Ricardo Coutinho exagerou quando se proclamou “irmão Siamês” de Eduardo Campos. Não dá para fazer comparações entre eles, principalmente se levar em consideração o aspecto administrativo, a sensibilidade e o tino político entre um e outro. É claro que num momento como esse tenta-se tirar proveito de tudo, até mesmo da perplexidade e comoção que transformou a morte prematura do presidenciável e ex-governador de Pernambuco.

Ricardo chamou a imprensa inteira para dentro da Granja Santana, uma atitude pouco comum no atual governo. Chocado como qualquer cidadão comum para a dimensão da trajetória, o governador da Paraíba atraiu para si a expectativa para a sua fala, que ocorreu quatro ou cinco horas depois do anuncio oficial de que dentro daquele jato que mergulhou o chão das ruas de Santos estava o presidenciável Eduardo Campos.

Na ocasião, a assessoria do governador distribuiu uma nota de pesar e lá no escrito estava a seguinte frase: “No seu jeito de encarar a gestão pública, perco um irmão siamês”.  Pois bem. Comparemos administrativamente: Campos trouxe para Pernambuco a Fiat, a Refinaria de Abreu e Lima, um pólo de medicamentos, o maior parque de construção de vidros planos da América Latina, além de ter reduzido bastante os índices de criminalidade no seu Estado.

Neste aspecto, ainda existe a relação com os segmentos sociais e Campos sabia se relacionar com todos, tinha diálogo e tratava a classe política como um verdadeiro estadista.

Os mais de R$ 60 bilhões de investimentos que Eduardo Campos trouxe para Pernambuco mostram que as comparações passaram mil léguas de distância do governo Ricardo Coutinho.

Continue a leitura e faça você mesmo sua reflexão se Ricardo não exagerou ao  se dizer “irmão Siamês” de Eduardo Campos. Eis a nota abaixo:

“A vida nos impõe, naturalmente, muitos dissabores ao longo de nossa caminhada. Mas tem dor que dói mais forte. Tem dor que dói mais fundo. Que deixa um vazio. Essa é uma delas. Perder um amigo confidente, um companheiro político, uma referência na visão desenvolvimentista da gestão pública, de uma maneira tão trágica e precoce, impõe uma dor que não está catalogada. Que não se classifica.

Eduardo Campos reacendia em mim, pessoalmente, e certamente em tantos outros brasileiros, a crença na nova política, na expectativa de um Brasil renovado e na existência de quadros capazes de assegurar nosso futuro. Qualificado para transformar, deixa ainda mais órfão um país já tão carente de uma nova geração de políticos transformadores.

Um jovem determinado. Inteligente. Preparado. Decidido. E, principalmente, corajoso. Virtudes do velho Miguel Arraes cuja genética não interrompeu ao deixá-las transcorrer de veia em veia até chegar nele próprio.

Foi o seu pulso forte que assegurou sem percalços minha transição partidária para o PSB. Gesto primeiro de nossa relação que jamais esquecerei. E foi a clareza de suas ideias e seu olhar vanguardista que me fizeram ter a convicção de que, ao seu lado, estávamos no caminho certo.

No seu jeito de encarar a gestão pública, perco um irmão siamês.

Plantamos juntos, cada qual em sua trincheira, eu prefeito de João Pessoa, ele ministro da Ciência e Tecnologia, eu governador da Paraíba, ele, governador de Pernambuco, desde a Estação Ciência Cabo Branco até a composição conjunta do complexo automotivo que se desenvolve no Litoral Sul da Paraíba em razão da fábrica da Fiat, instalada em Pernambuco, próximo da divisa com nosso estado. E cultivamos muitos e muitos outros sonhos. Acordados, sonhamos muitas vezes por um Nordeste mais pujante, mais autônomo e inserido na rota do crescimento econômico e social.

E tive a honra de compartilhar de seu imenso desejo de poder transformar as coisas. Pude rever isso recentemente quando ele esteve na Paraíba, após decidir modificar toda a agenda de campanha para conhecer o Cidade Madura, em João Pessoa, um condomínio exclusivo para idosos, cujo projeto ele inseriu em seu plano presidencial de governo.

Eduardo era um transformador por natureza.

Por isso, acredito que mesmo tendo sido arrancado violentamente de nosso convívio na esfera física, seu poder transformador continuará guiando nossos passos, continuará brotando em nossos corações e mentes, fomentando uma vontade incrível de seguir em frente, movidos pela esperança que o moveu durante todos esses anos. 

Solidarizo-me com toda sua família, com os familiares das outras vítimas, com os nossos irmãos pernambucanos, mais uma vez órfãos de um grande líder, num mesmo 13 de agosto em que perderam o velho Arraes, e com seus milhares de admiradores Brasil afora.

Adeus, companheiro. Tenho certeza de que você foi embora, assim, tão rápido, sem se despedir porque não queria que alguém pensasse que você desistiu. Pode ter certeza, de onde estiver, que não vamos desistir. Nem do Brasil. Nem de você.”